Taça Brasil 1966 - O reconhecimento a nível nacional

A Taça Brasil partia para sua oitava edição, a segunda com participação do Cruzeiro. Logo na primeira edição o Bahia tinha faturado o título, sobre o Santos, quebrando parte da cristalização que havia em torno dos clubes dos estados Rio de Janeiro e São Paulo; a segunda edição sagrou o Palmeiras campeão nacional; da terceira até a sétima o escrete do “Santos do Rei Pelé” havia faturado tudo. 

O Bahia até tentou levar o título em cima do Santos outras duas vezes (1961 e 1963), mas nem o “Botafogo de Garrincha e Nilton Santos” conseguira o feito (1962), o Flamengo (1964) e o Vasco (1965) também tentaram, mas ninguém escapou de goleadas no Pacaembu. 

1966 

Escondida nas alterosas das Gerais havia uma única seleção destinada a parar a bola “do campeão de todos os anos”, o campeão mineiro Cruzeiro Esporte Clube, quando digo seleção me refiro à um time que poderia ser integralmente convocado para qualquer Copa do Mundo sem pestanejar, seus nomes: 

Raul; Pedro Paulo, William, Procópio, Neco; Piazza, Dirceu Lopes, Tostão; Natal, Evaldo e Hilton Oliveira. 

Que, paralelamente, disputavam Taça Brasil e Campeonato Mineiro de 1966. 

Oitavas-de-finais 

O primeiro adversário Celeste foi o Americano, campeão fluminense: Tostão, Natal, Zé Carlos e Evaldo marcaram 4x0 no estádio Goytacaz, com destaque para o recém chegado da seleção (Tostão) e Evaldo que jogava na cidade em que nasceu. Uma semana depois as portas do Mineirão foram abertas para recebê-los e dá-lhe outra goleada, 6x1. 

Dali pra frente não haveria mais facilidade para Tostão e companhia, classificado para representar o Grupo Centro (que dividia a Zona Sul com o Grupo Sul) o adversário seria outro grande clube, o Grêmio de Porto Alegre. 

Quartas-de-finais 

Apenas seis dias após o Marechal gaúcho Artur Costa e Silva assumir a presidência do Congresso Nacional (03 de Outubro de 1966) o Cruzeiro foi à Porto Alegre enfrentar o tricolor gaúcho poderoso em sua marcação, contra nossos toques leves. O resultado acabou em 0x0, trazendo toda a tensão para o Mineirão. 

No dia 23 de Outubro recebemos o Grêmio no Gigante da Pampulha, o jogo era tão truncado e tenso quanto fora no Olímpico, para piorar quem abriu o placar foi o jogador Vieira, dos adversários. Não demorou para Marco Antônio, que entrara no lugar de Evaldo, empatar. O ídolo Tostão foi quem virou, ao bater um pênalti. 

Semi-finais 

Era a primeira vez que um clube mineiro ia às semifinais, enfrentaria ali o Fluminense – que já entrava direto nesta fase. Não houve muita dificuldade para passar o campeão da Guanabara, Tostão acredita que houve uma tensão por ambos os lados: pelo futebol mineiro não ser conhecido como hoje – graças ao favoritismo do eixo.

“Todo jogador fica ansioso antes de jogos decisivos. Assim também foi na época. Como o futebol não tinha o prestígio que tem hoje, havia mais curiosidade sobre o Cruzeiro. Acho que isso também nos ajudou” afirmou Tostão em entrevista ao Alexandre Simões. 

No Mineirão, com gol de Evaldo aos 30’, a partida terminou em 1x0. Já no Maracanã o jogo foi bem mais expressivo com quatro gols, um tricolor e outros três celestes, todos marcados por jogadores cruzeirenses: Evaldo (2), Dalmar (1) x Piazza (contra). Inacreditavelmente o Cruzeiro chegava à final da Taça Brasil. 

Final 

O futebol mineiro não era reconhecido nacionalmente, logo, o Cruzeiro não parecia assustar muito. Do lado oposto o Santos impunha respeito com seu penta-campeonato (Taça Brasil 1961-1965). A experiência do time santista acabou caindo sob os pés da habilidade e agilidade do jovem time celeste. 

Eram 77.325 “cabecinhas pulando” nas arquibancadas da Pampulha. No primeiro minuto Zé Carlos marcou um gol contra e o placar celeste já começava bem. Não demorou 5 minutos para Natal ampliar a vantagem e desesperar os corações da china azul. 

Passada a euforia dos 15 minutos iniciais o Cruzeiro ainda mantinha seu domínio do jogo, então Dirceu Lopes marcou o terceiro, aos 39’ marcou o quarto e Tostão terminou com o quinto aos 42’. Foram para o vestiário com a bela vitória parcial. Ao voltarem, Toninho marcou dois gols logo no início da partida, o que – revela Tostão – deixou o time apreensivo, “ainda mais em se tratando do Santos, (...) O gol de Dirceu Lopes definiu o resultado”. 

Na segunda partida nenhum outro resultado interessava ao Santos, eles queriam a vitória, esticar a decisão para a terceira partida e vencerem. E assim quase foi. Pelé abriu aos 23’ e Toninho Guerreiro ampliou aos 25’. Foram para o intervalo numa situação bem diferente da do jogo anterior. Embora muitos contem que Mendonça Falcão (presidente do Santos) tenha ido ao vestiário do Cruzeiro combinar o local da terceira partida, o que teria sido usado para motivar os jogadores Tostão não se lembra do ocorrido: 

“Não tenho certeza se isso é verdade. Ficamos sabendo disso depois do jogo. Não me lembro de ter visto Mendonça Falcão no vestiário, no intervalo do jogo. Nem isso foi usado pelo Cruzeiro para motivar os jogadores como falam”. 

O time voltou com outra postura pro campo e passou a dominar do jogo como se jogasse em casa, quando um pênalti – à favor do Cruzeiro – foi marcado, tudo parecia dar certo. Tostão preparou pra bater e... “Quando perdi o pênalti, o Cruzeiro dominava o jogo e criava muitas situações de gol. Por isso, percebi que ainda era possível virar a partida. Logo depois, fiz um gol de falta, quase sem ângulo”. 

Dez minutos depois do gol de Tostão, Dirceu marcou o segundo e empatou a partida. Natal virou nos minutos finais e não tinha pra mais ninguém. Cruzeiro campeão nacional, classificado para a Libertadores 1967. Se não acreditavam “no time mineiro” tudo bem, mineiro come bem quieto mesmo. 

O Cruzeiro sempre foi este time desmistificador. Quando ninguém parava o Santos o Cruzeiro atropelou. Quando ninguém ganhava Libertadores o Cruzeiro trouxe uma. Copa do Brasil contra o Palmeiras? Trouxemos. Contra São Paulo? Também.





Originalmente postado em Blog do Cruzeirense.

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