Libertadores 76 – Com muita raça e amor

Basta ter vivido um dia para ser um cruzeirense. A data é 30 de Julho de 1976, se quer saber o que 8.000.000 de pessoas sentem todos os dias quando acordam, volte nesta data.

Desculpem usar frases feitas nos títulos, mas o trecho “com muita raça e amor, Cruzeiro mais querido do Brasil” parece definir tudo que vimos na saga pelo título de 1976, engana-se quem pensa que o título começou a ser conquistado no primeiro jogo da Libertadores daquele ano, ou na contratação de Zezé Moreira no fim do ano anterior, Zezé recuperaria a força do time classificando-o: sim. Mas esta história começou em 1966 com a conquista da Taça Brasil. Desde então o time adquiria experiência e sabedoria.

Além das duas disputas anteriores, tínhamos na bagagem o conhecimento do sexagenário Zezé Moreira, a disputa da Copa América entre os dois anos, a experiência de alguns jogadores na seleção e também mais um nome: Jairzinho. Mas lembrem-se o que eu disse no texto passado, Libertadores se ganha com muita raça e amor.

Uma curiosidade é que naquele tempo amistosos às vezes eram mais rentáveis que a Libertadores. Alguns jornais chegaram anunciar que na edição de 1975 o Cruzeiro tivera prejuízos, tínhamos jogado um amistoso contra o Independiente de Santa Fé (16/03/1975) em Bogotá e isto serviu para a imprensa ilustrar que o torneio não teria sido rentável ao clube. O Fluminense, que havia sido desclassificado da competição, queria comprar a vaga do Cruzeiro, supostamente houveram várias tentativas de fazer algum acordo. No Jornal Brasil de 16/11/1975 saiu a seguinte nota de José Inácio Werneek:



Primeira fase

Clique aqui para ler o pós-jogo de Cruzeiro 5 x 4 Internacional do Jornal Brasil, na época.

Não vou narrar o jogo visto que o link que disponibilizei já faz isto muito bem. Sem dúvidas foi um jogo para começar a saga com pé direito. Cruzeiro x Internacional é o maior clássico nacional, fora de eixo RJ-SP, e este jogo definiu isto muito bem. A superação do Cruzeiro, mesmo com um jogador a menos e a busca incessante pela vitória é o que mostram que por mais que tivéssemos tantos nomes, nenhum deles valeria se não pela raça, afinal grandes nomes não nos trouxeram o título em 1967, certo?

Um amigo colorado comenta que o jogo “rivaliza com os 6 x 2 diante do Santos”. Ele também justificou o motivo “da violência dos defensores colorados referidos no texto” com a falta de preparo físico, que deixou os jogadores lentos chegando atrasados nos lances.

No segundo jogo o Cruzeiro foi ao Paraguai enfrentar o Esportivo Luqueño num castigado gramado. O time celeste chegou nervoso, o que não impediu Joãozinho de invadir a lateral-esquerda dos donos da casa. Erros de passe afligiam o jogo um pouco mais. Mas antes que a partida chegasse aos 20’ as coisas começaram à se reorganizar Jairzinho, Eduardo e Batata recuperaram o bom futebol e partiram pra cima em trocas de passes tabelados. Nelinho deixou o seu de falta, abrindo o placar em Assunção. Mas, num destes lances de arbitragens inexplicáveis o juiz voltou o lance e marcou um pênalti para o Esportivo Luqueño que “ocorrera” a dois lances atrás. Resultado da loucura foi o 1x0 do time paraguaio.

No intervalo os posicionamentos melhoraram e a raça subiu à cabeça. Batata deixou o seu logo no início. O Cruzeiro atacava e eles defendiam. Aos 20’ Nelinho mandou uma bomba para calar o estádio marcando o gol da virada. Para definir a partida Nelinho bateu uma falta de gancho para Jairzinho deixar o seu. Cruzeiro 3 x 1 Esportivo Luqueño.

Ainda na fase de grupos, quatro dias depois, na mesma capital, a seleção celeste enfrentava o Olímpia para empatar pela única vez toda a competição daquele ano, haveria ainda uma derrota (na final) e todos os outros 11 jogos foram triunfos. Sob o apito do árbitro argentino Coerezza os gols celestes foram marcados por Jairzinho e Darci. Cruzeiro 2 x 2 Olímpia.

Depois de dois jogos no Paraguai o time voltara ao Brasil para receber o Esportivo Luqueño, o qual vencera com facilidade por 4x1. Ainda houveram a vitória por 2x0 contra o Internacional, em Porto Alegre, uma vitória em cima do Olímpia para apagar o empate, 4x1, o que classificava o time em primeiro lugar do grupo passando adiante na competição.


Segunda fase

O grupo do Cruzeiro nas semifinais incluía a temida LDU e a Alianza. Um grupo difícil. Assim como a primeira fase ficou eternamente marcada por um jogo, o 5 x 4 contra o Internacional, a segunda fase teve sua marca, o 7x1 contra o Alianza. Maior goleada do time na Libertadores, até o 7 x 0 da pré-libertadores de 2010, contra o Real Potosí, da Bolívia.

Roberto Batata, o camisa 7

Certamente todos aqui sabem a importância de Roberto Batata na história do Cruzeiro. Tal importância ficou ainda mais clara depois do acidente automobilístico que acarretou sua morte.
Toda a equipe encontrou forças para continuar lutando mesmo após a perda de um jogador, um amigo, um parceiro. Há coisas na vida que nunca serão explicadas, talvez fosse mais comum o time se abater e jogar mal contra o Alianza, mas ocorreu exatamente o contrário
Não é à toa que carregamos às estrelas no peito e vestimos um manto azul celeste. De uma forma ou de outra os astros estão sempre nos acompanhando, dos céus vêm as forças do Cruzeiro Esporte Clube. O mestre Batata não deixou que a morte o separasse do time, entrou em campo contra o Alianza, aquele dia jogamos com 12. O resultado foi o número da camisa de Batata à 1.
A goleada de 7 x 1 sobre o Alianza foi em 20 de Maio de 1976, antes dela tínhamos vencido dois jogos pelas semi-finais. Um 3 x 1 contra a LDU e um 4 x 0 contra o Alianza em Lima, o que já nos garantia a classificação para disputar a primeira final continental do time. Ainda houve um último jogo, outro 4x1, contra a LDU.

As finais

Vou narrar mil vezes, assistir mil vídeos e nunca poderei sentir o que sentiu qualquer pessoa que teve a oportunidade de ver a garra do time azul em campo contra o River Plate.

Mineirão – 21/07/1976

A vontade de vencer os jogos era enorme, pelas chuteiras de Batata, pelas derrotas em anos anteriores, pelo amor à camisa, pela raça. 58.720 pagantes lotavam o Gigante para ver Nelinho, Valdo e Palhinha (2) deixarem seus gols marcados. Outra vez, vencemos por 4x1, o placar que mais se repetiu para o Cruzeiro naquela edição.
Um dos momentos mais marcantes da partida foi o terceiro gol, toques rápidos e sábios. O Bailarino, Joãozinho, driblou dois e cruzou para Palhinha que tocou de cabeça para Eduardo que chegou correndo na bola fingiu um chute, desceu à linha de fundo encobriu o goleiro adversário e deixou para Palhinha marcar.

Monumental – 28/07/1976

O estádio argentino recebeu 90.000 pagantes, mesmo depois da derrota em Minas. As regras eram outras, não o "gol fora de casa", no caso de uma vitória para cada disputava-se uma terceira partida.
Os torcedores argentinos fizeram o que sempre fazem, carregaram seu time até a vitória por 2 x 1, ajudados também pela arbitragem. O segundo gol do River Plate é bastante contestável depois de Raul soltar a bola numa defesa ficando para trás, dois jogadores adversários correram atrás da bola, Vanderlei foi tentar salvar, mas Luque empurrou Vanderlei enquanto Gonzalez marcava. Uma expulsão de Jairzinho também agravou a arbitragem .e a partida

Nacional – 30/07/1976

35.182 pagantes saíram de Argentina e Brasil para assistirem a guerra de titãs no Chile. Ainda inspirados pela perda de Batata os jogadores da Seleção Cruzeirense de 76 brilharam trazendo uma Taça Libertadores para o Brasil depois de 13 anos. O segundo time à conquistá-la (até então apenas havia o bi-campeonato do Santos).
Primeiro veio um gol de pênalti, de Nelinho, ficando em 1 x 0 até o fim do tempo. No retorno Eduardo marcou o 2 x 0 depois de uma jogada de Ronaldo, que estava no lugar de Jairzinho que fora expulso no jogo anterior. O jogo parecia decidido, quando o River diminuiu para 2 x 1 num pênalti e mudou os ares da partida, aproveitando das bolas paradas marcaram outro gol – de falta – enquanto a barreira não se decidia, um lance questionável para a arbitragem.

José Martinez, o juiz, estava devendo um “desconto” para o time mineiro e pôde ignorar tranquilamente quando Joãozinho marcou o gol mais histórico de sua carreira. Numa falta na entrada da área enquanto Nelinho distanciava para tentar o gol da vitória Joãozinho chutou inesperadamente marcando o gol sem que a barreira ou o goleiro pulassem. No ângulo.


Era o gol da vitória.
Na comemoração do gol houve uma confusão no banco do Cruzeiro que acarretou uma briga entre o massagista e o preparador físico contra Lonardi (River) com participação também de Guido. O resultado foi uma expulsão para cada lado e os chilenos gritando: Brasil! Brasil!.

Ao fim do jogo os jogadores do Cruzeiro ajoelharam-se, rezaram e agradeceram à Roberto Batata.


Nascia ali um mito chamado Cruzeiro, um mito que assombraria torcedores e jogadores por toda América Latina, mesmo 34 anos depois. A nossa diferença é que sabemos que vencer é uma questão de esforço, de vontade. Não precisamos nos intimidar por ninguém, quando queremos vencer podemos fazê-lo mesmo que não sejamos os favoritos, mesmo que para isto precisemos contar com a sorte, ou que tenhamos que superar saída de jogadores importantes e até a morte de um deles. Cada jogo é uma guerra e não uma batalha. E se enquanto for assim nunca abandonaremos uma competição de cabeça baixa. Quebrar tabus, mitos e invencibilidades é só um detalhe a mais. Somos “La Bestia Negra del continente” justamente por não temermos à nenhum time, nenhum estádio e estarmos sempre prontos pra levantar mais uma taça, escrever mais uma história.



Libertadores 76 em números:

Jogos: 13
Vitórias: 11
Empates: 1
Derrota: 1
Gols feitos: 46
Gols sofridos: 17

Originalmente postado em Blog do Cruzeirense.

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