A travessia do futebol (parte III)

O futebol quer sair da várzea 

- Proletariado Futebol Clube 

As empresas perceberam que criando times com seus nomes podiam divulgar a sua marca, enquanto mais longe fossem nas competições mais marketing estariam promovendo. Passaram a pagar extras aos operários-jogadores, os ditos “bichos”. Para melhorar a renda da família os operários jogavam futebol, não era por amor, era por necessidade. 

Além do dinheiro os bons jogadores eram promovidos dentro das empresas, passando ao serviço “leve” e sendo dispensados em algumas ocasiões. Esses times acabaram revelando jogadores como Domingos da Guia

O ano de 1923 é um grande marco para o futebol brasileiro, não só o amadorismo começava a ser colocado de lado, mas também os preconceitos com a participação de jogadores negros e da classe baixa. Finalmente o elitismo do esporte começou ser combatido. 

Desde 1915 alguns clubes, como o Vasco da Gama, contavam com jogadores do subúrbio, o que nunca havia incomodado a elite, já que o time pertencia a segunda divisão do Campeonato Carioca. Os jogadores vascaínos jogavam por uma renda e não por lazer, o que começou incomodar os times da Zona Sul quando o time “do subúrbio” instalou-se na primeira divisão, em 1923. 

Com negros, analfabetos, um pintor de parede e um taxista o cruzmaltino conquistou o Campeonato Carioca daquele ano. A ideia infernizou a elite futebolista que não gostou nem um pouco de ser tratada de dividir o mesmo espaço entre negros e brancos, intelectuais e analfabetos. 

Em protesto os “grandes clubes” desarticularam-se da LMDT (Liga Metropolitanda dos Desportos Terrestres) e formaram a Associação Metropolitana de Esportes Athleticos (AMEA), a nova liga excluía em seu regulamento os “trabalhadores braçais”, “analfabetos” e os “que não possuem empregos definidos” sob uma séride de desculpas. 

O profissionalismo também tomava força na Europa, quando a Juventus pagou pela transação de um jogador o caso foi para a justiça. Com a Juventus vencendo, a compra de passe de jogadores passou a ser mais uma das características do futebol profissional. 

Alguns jogadores chegaram a protestar no Jornal Gazeta contra o amadorismo, exigiam ser tratados como profissionais. Em 1931 alguns jogadores foram transferidos para a Europa em busca do profissionalismo, andavam revoltados por não receberem dignamente pelo futebol. 

Com as manifestações acima citadas, e as não citadas, mais o impulso dado pelo presidente Vargas para organizar o futebol nacional e as exigências de profissionalismo para pertencer à FIFA alguns clubes começaram a mover-se. No ano de 1933 estas mudanças foram levadas mais a sério. Vasco, América, Fluminense e Bangu rompem com a AMEA e fundam a Liga Carioca de Football que atendia às exigências do profissionalismo. 

Em São Paulo, a Liga Paulista de Futebol e a Associação Paulista de Futebol desfiliam-se da CBD e fundam a FBF que atendia às exigências da FIFA e filiaram-se a tal. Ainda em 1933, inicia-se o torneio Rio – São Paulo, que impulsiona mais tarde a criação de um campeonato nacional. 

Em 1937, a CBD finalmente aceita o profissionalismo, e o amadorismo é extinto do futebol brasileiro. 

Depois do fim da Segunda Guerra Mundial a FIFA volta a promover a Copa do Mundo. Então, em 1950, o Brasil sedia o Mundial na esperança de consagrar-se campeão pela primeira vez. Até porque agora o futebol não é mais formado pelos amadores que disputaram pelo Brasil as outras edições. 

A Copa foi um fiasco, o Brasil perdeu para o Uruguai em pleno Maracanã – estádio construído especialmente para sediar a Copa do Mundo. O sentimento dos brasileiros pela seleção acabou aumentando e o amor ao futebol também, embora os torcedores fossem – em sua maioria – os moradores das capitais. 

1950 também foi marcado pela volta do torneio Rio – São Paulo. 

Oito anos depois o Brasil finalmente conquistou sua primeira Copa do Mundo, com Garrincha, Pelé, Nilton Santos e outros nomes nunca esquecidos na história do futebol do país. A seleção canarinho finalmente foi conhecida pelo mundo inteiro que passou a admirar nosso futebol inigualável.

Originalmente postado em Bagatelas

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